18 Novembro, 2011

Solidão


Sabes,
já não sei o que é viver sem ti...
Já nem me lembro
(um dia que seja)
o que é não sentir a tua presença...
Não conheço outro tempo que não seja o teu...
E no entanto, solidão,
tão apetecida é a tua ausência em mim.


Ema Morais (Cabanas de Baixo) 2007
colocação póstuma

04 Outubro, 2011

É Sempre à Noite...

É sempre à noite...
Quando o sossego das horas acaricia o sono...
Que a mão das lembranças vem colher
a vontade
no corpo que adormece. 
É sempre à noite...
Quando a ausência agasalha o luto...
Que a saudade recebe em dor
a maquia
do fadário produzido.  
É sempre à noite...
Quando a luz se torna necessária...
Que o cortinado dos dias enclausura
o negro
que no peito transparece. 

 c. p

03 Junho, 2011

Silêncios


Os silêncios das tardes
são como os da alma
Profundos

No aconchego dos anos
ameaçam as noites
sufocantes
e agarram-se ao corpo
e à alma
e ao luto
      com raízes de memória

e com todos os agostos
passados na eira.
c. p. 

28 Maio, 2011

O Inverno nos teus gestos


Amanhece o inverno
nos teus gestos.
O tempo
mede forças no teu corpo
e
sofridamente
os teus passos
têm a rua que é a mesma
mas com outra dimensão.

c. p.

02 Abril, 2011

O Senhor Belchior

Dois dedos de conversa...




Em Geraldes, o sossego da tarde senta-se, rendido,
no lugar do Senhor Belchior. 

As estampas coladas na parede, guardiãs da alma,
decoram os dias. E guardam também o tempo
que obstinadamente se alapa em cada objecto.

Entre os trabalhos (e os alhos) dependurados,
aguça-se-nos o olhar no esmeril da curiosidade.
 E dois dedos de conversa bastam
para que o sorriso aconteça. 
Doce...

Quisemos tirar-lhe o retrato. Aceitou
com a mansidão dos que usam a gentileza como prática.


Geraldes (Peniche) - 2010 

16 Fevereiro, 2011

Álvaro Albino

Confiança



O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova... 
Miguel Torga

Longroiva (Mêda) - Fevereiro 2011

20 Janeiro, 2011

Luis Ribeiro

Aqui diante de mim





Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
...
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)
Ranhados (Mêda)

14 Maio, 2010

Ti Adriano Passeira

Em quantas partes se divide um mangual ?



Sabendo nós que os anos não perdoam, e que o seu peso, quase sempre, é proporcional à quantidade dos invernos passados, admirávamos no Ti Adriano a maneira fácil de caminhar, apesar dos seus 82 anos.
Homem sempre pronto a participar na aldeia em qualquer actividade, deliciava-nos com a sua simplicidade. Entusiastas, acostumámo-nos a conviver com a sua presença amiga.
Na lembrança ainda a corrida chocalheira num magusto em dia de S. Martinho!...
Hoje, e sabendo-o a recuperar, imobilizado, de uma queda sofrida no último sábado de Abril, queremos lembrar-lhe que esperamos para breve a sua recuperação, e que no próximo passeio pedestre das Mós lhe desculparemos se o avanço dado a todos nós não for da mesma qualidade dos anteriores.
O macho, testemunha e companheiro do acontecido nesse sábado trágico, vai poder agora descansar uns dias sem ir à propriedade. Enquanto nós, perante mais uma lição de vida, ficaremos à espera do "professor" para nos dizer: - Em quantas partes se divide um mangual?

(Mós - V. N. de Foz Côa) 2010

31 Março, 2010

Cassiano Rebelo

Um retrato em dia de Santo Amaro

Embora fisicamente não nos parecesse estranha, não reconhecemos a personagem. Mesmo assim, permitimo-nos roubar-lhe o retrato.
Seria apenas mais um retrato. Um retrato a quem, dado o momento de oração, nem sequer lhe conseguimos perguntar o nome.
Um retrato em dia de Santo Amaro.


Um ano e oito meses depois, e porque a mansidão do olhar não deixava dúvida, reencontramos por acaso o homem do retrato.
Chegou acompanhado de uma vizinha que o ajudou a sentar-se no banco da praça.
- Era a noite da festa na Fontelonga, sua terra Natal.
Do extenso rol de contrariedades que a vizinha nos desvendou da vida deste homem, a última, ainda fresca, era a da morte do filho que tinha em França.
Depois de algumas voltas dadas pela arca velha da memória, por ironia do destino, havíamos de descobrir que também nós temos a nossa quota parte no rol dessas contrariedades, ao lembrarmo-nos que, anos antes, acidentalmente, à porta da taberna da D.ª Etelvina, e da única vez que um cão nos ficou debaixo da viatura, esse, era do Sr Cassiano. O animal estava deitado à frente de uma das rodas quando iniciávamos a marcha.
Só quem já passou por idêntica situação de perda, é capaz de compreender o estado de alma em que o dono fica. A sua reacção foi de compreensão pelo sucedido, no entanto lembra-nos ter ouvido dele estas palavras: " (...) Antes queria perder sei lá o quê!...".
Cassiano Rebelo, tem 87 anos. É viúvo. Ouve mal. Vive sozinho.

(Fontelonga - Mêda) 2009

24 Outubro, 2009

Maria Cândida



Também para ela, o silêncio, vestido de negro, é a companhia dos dias depois da morte do marido. Tem nos vizinhos a família escolhida, e é nessa boa vontade que descobre forças para viver.
Com oitenta anos, Maria Cândida, ainda bebe o seu copinho. São pequenos prazeres onde o cansaço das horas encontra refúgio e se transfigura numa forma muito mais doce. Num corpo de menina, num olhar inquieto, o tempo parece ter encontrado repouso.
Contam-nos que - ainda hoje - se motivos houvesse para bailar, não regatearia ao corpo a oportunidade esforçada de dar um gostinho ao pé.
Uma coisa a preocupa: “Que o filho que está na Suíça (e que vem à terra por alturas do Verão) arranje companhia, se arrume. Aí, já podia morrer descansada”.

(Paipenela - Mêda) 03Outubro2009

09 Julho, 2009

27 Novembro, 2008

Maria do Céu



Fé em Santa Eufémia

Estava encostada à porta quando entrávamos para o Santuário.
Perguntámos-lhe se na noite grande, a noite de 15 para 16 de Setembro, ainda vinham duas bandas de música tocar a Penedono na romaria a Santa Eufémia.
Maria do Céu, zeladora do Santuário, acenou que não com a cabeça, lamentando-se:
–“Agora só vem uma. Sabem meus senhores, os tempos estão maus!”
E ausentou-se.
No fim da visita, Maria do Céu veio ao nosso encontro.
Sorridente, mostrava-nos a mão onde trazia o pão e a uva.
E foi dizendo:
“São servidos?”
Era o lanche que lhe serviria de jantar.
Em breves palavras contou-nos algumas histórias da sua vida, a vida que faz enganadores os 58 anos que tem e, dos quais, nos disse já serem muitos.
Falou-nos também da doença do marido e da história de lhe terem cortado a perna.
– “Um inferno!... Morreu, já vai para quatro anos! (...) Agora, apareceu-me qualquer coisa num peito...”
( ??? )
Maria do Céu, tem fé em Santa Eufémia.

(Santa Eufémia - Penedono) 10Novembro2008

13 Abril, 2008

Elisio Passeira


(Esqueço-me de Mim)


No desassossego a que me obrigo,
Se consigo estar parado,
Só deitado
Abrigo
Este cansaço.
Esqueço-me dos dias,
E dou comigo
A tropeçar nas noites.
Esqueço-me, até de mim...
E sou assim…

(Mós - V.N. Foz Côa) 22Março2008

16 Outubro, 2007

O ferrador, a burra preta, o dono e a neta

Uma no cravo… outra na ferradura…

A pacatez asfixiante da tarde era recortada pelo bater compassado do martelo… e a cada pancada no cravo, a ferradura ia tomando encosto à pata do animal.
Afamado nas redondezas, Secundino Pinto, mestre ferrador, com a experiência que lhe era dada pelos 83 anos batidos ao ritmo do malho e ao som da bigorna, lá ia vencendo os safanões da burra preta... Ao ver-nos, com a graça sarcástica que lhe conhecíamos, não se poupou em dizer:
- “Ó amigo Pedro, com duas pernas há muitos… agora destes, ainda os há, mas cada vez menos...”
Quem não estava a gostar nada da brincadeira era o dono, Diniz Abrunhosa, que maldizia a sorte cada vez que a força dos seus 88 anos não aguentava a enérgica sacudidela da burra e largava a pata traseira que segurava. - “Raio parta a burra! … deve ser por causa da mosca! …”
Com artimanha elaborada pelo mestre, a neta, lá ia tentando dissuadir a burra da obstinada ideia de coicear, mas a tarefa não estava nada fácil.
(...)
Ocupámos o lugar do avô... e o serviço fez-se com segurança.

(Aveloso - Mêda) 29Agosto2007

28 Agosto, 2007

« O Roque »

Maria de Lurdes Rodrigues e António da Silva Carvalho

Abrigados à sombra da parreira, perdidos na doçura de uma talhada de melão e de um copo de vinho branco, fomos descobrindo o gosto miniaturista de António da Silva Carvalho «O Roque».

- “ Chamam-me Roque porque o meu pai era Roque, e Roque fiquei (…) não sou homem de ir para o café e não gosto de falar na vida alheia (…) vou fazendo estas coisas para passar o tempo...”
Exibia com vaidade os arados, os bois e os carros-de-bois feitos em miniaturas, e falava-nos do tempo, desse tempo a quem ele estava habituado a trocar as voltas e a roubar o vagar para as suas construções.

Os oitenta e dois anos mostravam-se ainda rijos para cuidarem do campo que rodeia a casa no lugar do ribeirinho. E com um sorriso maroto lá foi dizendo:
- “Olhe que a minha mãe durou até aos cento e três anos!…”

Adivinhámos-lhe a graça e dissemos:
- Ó ti António, se o tempo não nos pregar a finta, havemos de voltar a conversar daqui a vinte e cinco anos… pelo menos!

(Mós - V.N.Foz Côa) 18Agosto2007

22 Agosto, 2007

Tia ILDA

Ilda Almeida, com a mesma franqueza que nos abre a porta de sua casa, vai destapando do mais fundo da sua memória certezas que transformaram incertos os dias da sua vida. Não é dificil adivinharem-se-lhe no rosto as atribulações vividas nestes seus 83 anos de idade.

Órfã de pai aos cinco anos, foi morar aos doze, depois da morte de sua mãe, para a casa de uns tios. Aí, por caminhos diferentes dos que então percorrera, partilhando a vida com os tios pastores, atrás do gado ou com a vasilha do leite à cabeça havia de conhecer outras maneiras de enganar o sono.

A lida do campo, entre luas, preenchera-lhe todas as horas... Esqueceu-se de si, demasiadamente, a servir os outros ... E, sem tempo, viveu o tempo pelo lado mais escuro...
Não foi à escola. Não casou. Vive sozinha.
"Mas tem muitos amigos"...

Num envelope grande, guarda as fotografias mais recentes, e aquela, que os sobrinhos lhe tiraram e mandaram da França, onde aparece a ser beijada:

- «Aqui, pareço uma senhora!»

(Ranhados - Mêda) 17Agosto2007

10 Agosto, 2007

Amilcar Saraiva

Melodias (ajustadas)
Nas mãos,
com que traz para casa o pão de cada dia,
embala, agora, a gaita-de-beiços,
adormecendo a noite
no sono roubado a todas as manhãs.

Como que a pedir desculpa às horas
amargadas pelo suor e pelos lutos,
Amilcar, vai ajustando melodias,
aquelas, onde a própria memória se refugia !...


(Relva - Longroiva) 24Março2007

09 Agosto, 2007

Odete Costa

(Entre as silvas e as amoras)
Entre as silvas e as amoras
Vai tricotando saudades …
Irmã de todas as horas,
Tem nos olhos as estrelas
Com que alumia as vontades.

Enjeitada da fortuna.
Afilhada do cansaço.
Chama as cabras, uma a uma,
E guarda as tardes no regaço.

(Q.ta da Coutada- Longroiva) 03Março2007

31 Julho, 2007

Felizmina "Lila"


-"São azedas. Você gosta de azedas?...
- São para vender?
- "Não, é para comer. Estas são baratas, apanham-se nas paredes."
(...)
-"O meu nome?... não lh'o dou... para que o quer?..."

E lá continuou na teimosa empresa. Quase não olhou para mim.
Mais tarde, na aldeia, disseram-me que se chamava Felizmina "Lila".

(Muxagata - V.N. de Foz Côa) 02Dezembro2006

22 Janeiro, 2007

José Albino

Guardador de histórias

Nessa tarde, José Albino, foi semeando algumas das muitas histórias que sabe e guarda como ninguém. O gado teimava em retardar o fim do dia e não queria voltar para casa.
Deliciadamente fizemos-lhe companhia.
E pela vez primeira fui ajudante de pastor.

(Cornalheira - Fontelonga - Mêda) 26Novembro2006