24 Outubro, 2009

Maria Cândida



Também para ela, o silêncio, vestido de negro, é a companhia dos dias depois da morte do marido. Tem nos vizinhos a família escolhida, e é nessa boa vontade que descobre forças para viver.

Com oitenta e oito anos, Maria Cândida, ainda bebe o seu copinho. São pequenos prazeres onde o cansaço das horas encontra refúgio e se transfigura numa forma muito mais doce. Num corpo de menina, num olhar inquieto, o tempo parece ter encontrado repouso.

Contam-nos que - ainda hoje - se motivos houvesse para bailar, não regatearia ao corpo a oportunidade esforçada de dar um gostinho ao pé.

Uma coisa a preocupa: “Que o filho que está em França (e que vem à terra por alturas do Verão) arranje companhia, se arrume. Aí, já podia morrer descansada”.

(Paipenela - Mêda) 03Outubro2009

09 Julho, 2009

27 Novembro, 2008

Maria do Céu



Fé em Santa Eufémia

Estava encostada à porta quando entrávamos para o Santuário.
Perguntámos-lhe se na noite grande, a noite de 15 para 16 de Setembro, ainda vinham duas bandas de música tocar a Penedono na romaria a Santa Eufémia.
Maria do Céu, zeladora do Santuário, acenou que não com a cabeça, lamentando-se:
–“Agora só vem uma. Sabem meus senhores, os tempos estão maus!”
E ausentou-se.
No fim da visita, Maria do Céu veio ao nosso encontro.
Sorridente, mostrava-nos a mão onde trazia o pão e a uva.
E foi dizendo:
“São servidos?”
Era o lanche que lhe serviria de jantar.
Em breves palavras contou-nos algumas histórias da sua vida, a vida que faz enganadores os 58 anos que tem e, dos quais, nos disse já serem muitos.
Falou-nos também da doença do marido e da história de lhe terem cortado a perna.
– “Um inferno!... Morreu, já vai para quatro anos! (...) Agora, apareceu-me qualquer coisa num peito...”
( ??? )
Maria do Céu, tem fé em Santa Eufémia.

(Santa Eufémia - Penedono) 10Novembro2008

13 Abril, 2008

Elisio Passeira


(Esqueço-me de Mim)


No desassossego a que me obrigo,
Se consigo estar parado,
Só deitado
Abrigo
Este cansaço.
Esqueço-me dos dias,
E dou comigo
A tropeçar nas noites.
Esqueço-me, até de mim...
E sou assim…

(Mós - V.N. Foz Côa) 22Março2008

16 Outubro, 2007

O ferrador, a burra preta, o dono e a neta

Uma no cravo… outra na ferradura…

A pacatez asfixiante da tarde era recortada pelo bater compassado do martelo… e a cada pancada no cravo, a ferradura ia tomando encosto à pata do animal.
Afamado nas redondezas, Secundino Pinto, mestre ferrador, com a experiência que lhe era dada pelos 83 anos batidos ao ritmo do malho e ao som da bigorna, lá ia vencendo os safanões da burra preta... Ao ver-nos, com a graça sarcástica que lhe conhecíamos, não se poupou em dizer:
- “Ó amigo Pedro, com duas pernas há muitos… agora destes, ainda os há, mas cada vez menos...”
Quem não estava a gostar nada da brincadeira era o dono, Diniz Abrunhosa, que maldizia a sorte cada vez que a força dos seus 88 anos não aguentava a enérgica sacudidela da burra e largava a pata traseira que segurava. - “Raio parta a burra! … deve ser por causa da mosca! …”
Com artimanha elaborada pelo mestre, a neta, lá ia tentando dissuadir a burra da obstinada ideia de coicear, mas a tarefa não estava nada fácil.
(...)
Ocupámos o lugar do avô... e o serviço fez-se com segurança.

(Aveloso - Mêda) 29Agosto2007

28 Agosto, 2007

« O Roque »

Maria de Lurdes Rodrigues e António da Silva Carvalho

Abrigados à sombra da parreira, perdidos na doçura de uma talhada de melão e de um copo de vinho branco, fomos descobrindo o gosto miniaturista de António da Silva Carvalho «O Roque».

- “ Chamam-me Roque porque o meu pai era Roque, e Roque fiquei (…) não sou homem de ir para o café e não gosto de falar na vida alheia (…) vou fazendo estas coisas para passar o tempo...”
Exibia com vaidade os arados, os bois e os carros-de-bois feitos em miniaturas, e falava-nos do tempo, desse tempo a quem ele estava habituado a trocar as voltas e a roubar o vagar para as suas construções.

Os oitenta e dois anos mostravam-se ainda rijos para cuidarem do campo que rodeia a casa no lugar do ribeirinho. E com um sorriso maroto lá foi dizendo:
- “Olhe que a minha mãe durou até aos cento e três anos!…”

Adivinhámos-lhe a graça e dissemos:
- Ó ti António, se o tempo não nos pregar a finta, havemos de voltar a conversar daqui a vinte e cinco anos… pelo menos!

(Mós - V.N.Foz Côa) 18Agosto2007

22 Agosto, 2007

Tia ILDA

Ilda Almeida, com a mesma franqueza que nos abre a porta de sua casa, vai destapando do mais fundo da sua memória certezas que transformaram incertos os dias da sua vida. Não é dificil adivinharem-se-lhe no rosto as atribulações vividas nestes seus 83 anos de idade.

Órfã de pai aos cinco anos, foi morar aos doze, depois da morte de sua mãe, para a casa de uns tios. Aí, por caminhos diferentes dos que então percorrera, partilhando a vida com os tios pastores, atrás do gado ou com a vasilha do leite à cabeça havia de conhecer outras maneiras de enganar o sono.

A lida do campo, entre luas, preenchera-lhe todas as horas... Esqueceu-se de si, demasiadamente, a servir os outros ... E, sem tempo, viveu o tempo pelo lado mais escuro...
Não foi à escola. Não casou. Vive sozinha.
"Mas tem muitos amigos"...

Num envelope grande, guarda as fotografias mais recentes, e aquela, que os sobrinhos lhe tiraram e mandaram da França, onde aparece a ser beijada:

- «Aqui, pareço uma senhora!»

(Ranhados - Mêda) 17Agosto2007

10 Agosto, 2007

Amilcar Saraiva

Melodias (ajustadas)
Nas mãos, com que traz para casa o pão de cada dia, embala, agora, a gaita-de-beiços, adormecendo a noite no sono roubado a todas as manhãs.
Como que a pedir desculpa às horas, amargadas pelo suor e pelos lutos, Amílcar vai ajustando melodias... aquelas, onde a própria memória se refugia !...

(Relva - Longroiva) 24Março2007

Odete Costa

(Entre as silvas e as amoras)
Entre as silvas e as amoras
Vai tricotando saudades …
Irmã de todas as horas,
Tem nos olhos as estrelas
Com que alumia as vontades.

Enjeitada da fortuna.
Afilhada do cansaço.
Chama as cabras, uma a uma,
E guarda as tardes no regaço.

(Q.ta da Coutada- Longroiva) 03Março2007

31 Julho, 2007

Felizmina Lira


-"São azedas. Você gosta de azedas?...
- São para vender?
- "Não, é para comer. Estas são baratas, apanham-se nas paredes."
(...)
-"O meu nome?... não lh'o dou... para que o quer?..."

E lá continuou na teimosa empresa. Quase não olhou para mim.
Mais tarde, na aldeia, disseram-me que se chamava Felizmina Lira.

(Muxagata - V.N. de Foz Côa) 02Dezembro2006

22 Janeiro, 2007

José Albino

Guardador de histórias
Nessa tarde, José Albino, foi semeando algumas das muitas histórias que sabe e guarda como ninguém. O gado teimava em retardar o fim do dia e não queria voltar para casa.
Deliciadamente fizemos-lhe companhia.
E pela vez primeira fui ajudante de pastor.

(Cornalheira - Fontelonga - Mêda) 26Novembro2006

Maria do Casarão

Maria (do Casarão) olhava a tarde com tristeza...
Encostada ao pau, contou-nos a história de como partira o braço que trazia ao peito, e, com lágrimas, culpava-se de não poder ajudar a filha e o genro na descamizada do milho.

Pitões das Junias (Montalegre) 14Outubro2006